Além do Cidadão Kane

domingo, 31 de maio de 2009

Iraque: A corrupção está a minar o programa de ajuda alimentar do estado?

Fonte: uruknet
Tradução de Guadalupe Magalhães

O sistema de racionamento de comida gerido pelo estado, no Iraque, está a desmoronar-se e a corrupção das altas esferas do poder terá responsabilidade nisso.
Um novo inquérito lançado pelo Ministro do Planejamento, Desenvolvimento e Cooperação apurou que das 120.000 famílias que foram consideradas para beneficiarem de ajuda alimentar em 15 das 18 províncias do Iraque, 18% não receberam nove produtos a que tinham direito durante 13 meses; 31,5% durante 7-12 meses; 14,5% durante 4-6 meses, 22% durante 2-3 meses e 14.5 durante um mês.

O inquérito também revelou preocupações acerca da qualidade dos produtos: 16% das famílias inquiridas disseram que os produtos em Abril eram maus, 45% que eram aceitáveis, enquanto 29% afirmaram que eram bons.

No topo da lista de maus produtos estavam o chá, seguido pelo arroz, farinha e açúcar.

Entretanto, um membro do parlamento afirmou em 18 de Maio que o Ministro do Comércio Abdul-Falah al-Sudani irá enfrentar uma moção de censura, na próxima semana, no parlamento, devido a acusações de desvio de dinheiro e corrupção – principalmente relacionadas com a importação de comida para o esquema de racionamento conhecido como Sistema de Distribuição Pública.

“Até agora já reunimos 110 assinaturas de membros do parlamento para apoiar esta moção. A corrupção no Ministério do Comércio vai até ao mais alto nível, especialmente a relacionada com a importação de produtos impróprios para consumo humano disse o Sheikh Sabah al-Saidi, porta-voz do Comitê para a Integridade.

O mesmo acrescenta que “bilhões de dólares foram desperdiçados por este ministério e isso levou a que os cidadãos tenham recebido produtos impróprios nos últimos anos, bem como atrasos na distribuição em alguns lugares”.

Uma maioria simples de 275 membros do Parlamento é suficiente para destituir o Ministro do Comércio.

Em 16 e 17 de Maio, Al-Sudani apareceu perante o Parlamento onde reconheceu que havia certos casos de corrupção no seu Ministério e admitiu que “ alguns produtos estavam estragados”.O irmão do Ministro e outro oficial foram presos, enquanto mais sete oficiais, incluindo outro irmão, ainda estão à solta.

A ajuda alimentar ainda é vital

O inquérito conclui que “apesar dos pontos negativos registrados no mesmo, as famílias entrevistadas ainda consideram que o sistema de auxílio alimentar é a única garantia de assegurar a sua sobrevivência”.

A ajuda alimentar conhecida como Sistema de Distribuição Pública foi implementada em 1995 como parte do programa das Nações Unidas “petróleo – por – comida” que se seguiu à invasão do Kuwait pelo Iraque há 17 anos. Contudo, tem-se vindo a deteriorar desde a invasão dos Estados Unidos ao Iraque devido à insegurança, má gestão e corrupção.

As rações mensais do Sistema de Distribuição Pública devem conter: arroz (3 kg por pessoa); açúcar (2 kg por pessoa); óleo alimentar (1,25kg ou 1 litro por pessoa); farinha (9kg por pessoa); leite para adultos (250g por pessoa); chá (200g por pessoa); feijão (250g por pessoa); leite para crianças (1,8kg por criança); sabão (250g por pessoa); detergentes (500g por pessoa); pasta de tomate (500g por pessoa).
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Original em Tribunal Iraque

Tortura em transe

Não punir torturadores é usar o esquecimento como princípio organizador da ação jurídico-política. É tomar o torturado como um corpo sobre o qual se pode agir perpetuamente, já que simbolicamente continua detido.
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Gilson Caroni Filho

.Há pouco tempo, Eric Hobsbawm, em entrevista publicada no jornal argentino Página 12, disse que o presidente Lula "é o verdadeiro introdutor da democracia no Brasil", pois "lá existem muitos pobres e ninguém jamais fez tanta coisa por eles". Análise precisa ou arroubo produzido por afinidade ideológica? Nem uma coisa, nem outra. A história em movimento não comporta conclusões apressadas. Os avanços são inegáveis, mas ainda temos um bom pedaço de chão pela frente.
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Se o que queremos é consolidar a democracia política como valor permanente, como conjunto de relações sociais a ser permanentemente aperfeiçoado até a afirmação plena da cidadania, um enfrentamento, sempre protelado se faz necessário: julgar e processar os violadores dos direitos humanos durante o regime militar.
Como a história é entendida a partir de recortes da memória, os embates travados, em 2008, entre a Advocacia-Geral da União (AGU), que produziu parecer favorável a torturadores, e a Secretaria Nacional de Direitos Humanos, que considera o crime de tortura imprescritível, deixam evidente que, ao contrário de países vizinhos, ainda não há no governo brasileiro uma leitura atualizada da Lei da Anistia, sancionada em plena ditadura.
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Falta, como destaca Glenda Mezarobba, professora da Unicamp, "uma interpretação sob a ótica dos direitos humanos e do direito internacional que afirma que não há anistia para crimes como a tortura".
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Afirmar que o expediente legal dos militares "propicia um clima de reconciliação e paz nacional" é desconhecer seus objetivos de origem: impedir que a sociedade tivesse direito à verdade, com a revelação dos crimes cometidos e suas circunstâncias, e evitar a punição dos responsáveis por atos repressivos e ilegais. Ademais, é sempre bom lembrar que a versão original da Lei 6.883 já foi bem alterada, o que não autoriza ações procrastinadoras ou leituras canhestras tão ao gosto do presidente do STF.
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Não punir torturadores é usar o esquecimento como princípio organizador da ação jurídico-política. É tomar o torturado como um corpo sobre o qual se pode agir perpetuamente, já que simbolicamente continua detido. Sob o manto da impunidade dos seus algozes, permanece suspenso em um pau de arara, enevoado pela cortina de uma ideologia autoritária que impossibilita a plenitude democrática. Não lhe é negada apenas a restituição da dignidade, mas a história do seu tempo, aquilo que dá sentido à vida e às lutas nela travadas. É chaga que não fecha. Personifica, perigosamente, o princípio da impunidade para o torturador que, pela sua natureza e magnitude, agravou a consciência ética da humanidade.
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A ditadura nasceu e se afirmou como contrarrevolução. Expressou, como definiu Otávio Ianni, a reação de um novo bloco de poder às reivindicações, lutas e conquistas de operários, camponeses e militares de baixa patente. "Em geral, os golpistas estavam combatendo propostas e realizações de movimentos e governos reformistas". Para tanto, o poder estatal alargou sua ação por todos os círculos da vida nacional, anulando o espaço do privado. O terror e a barbárie espalharam-se pelo tecido da sociedade civil até os mais distantes recantos e poros. Esgotado seu ciclo, por não ter sido enfrentado pelo Estado democrático, sobre ele paira como espectro.
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Como noticiou o Jornal do Brasil, "no salão nobre do Clube Militar, generais, brigadeiros e almirantes comemoram o aniversário da chamada por eles Revolução Democrática de 31 de março de 1964". O general Gilberto Figueiredo disse que via as manifestações de protesto dos estudantes "como direito de se manifestar e de interpretarem como querem, é o direito à liberdade".
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É uma observação incompleta. Como afirmou Herbert Marcuse, "esquecer é também perdoar o que não seria perdoado se a justiça e a liberdade prevalecessem. Esse perdão reproduz as condições que reproduzem injustiça e escravidão: esquecer o sofrimento passado é perdoar as forças que o causaram – sem derrotar essas forças".
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Até quando o general festejará as luzes que permanecem acesas nos porões?
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* Artigo publicado originalmente no Jornal do Brasil
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Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.
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CUFA

A CUFA – Central Única das Favelas – é uma organização sólida, reconhecida nacionalmente pelas esferas políticas, sociais, esportivas e culturais. Foi criada a partir da união entre jovens de várias favelas do Rio de Janeiro – principalmente negros – que buscavam espaços para expressarem suas atitudes, questionamentos ou simplesmente sua vontade de viver.
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Tem o rapper MV Bill como um de seus fundadores, este que já recebeu diversos prêmios devido à sua ativa participação no movimento Hip Hop. Por exemplo, a UNESCO o premiou como uma das dez pessoas mais militantes no mundo na última década. Além dele, a CUFA conta com Nega Gizza, uma forte referência feminina no mundo do Rap, conhecida e respeitada por seu empenho e dedicação às causas sociais. Nega Gizza é também Diretora do HUTÚZ, o maior festival de Rap da América Latina, que é produzido pela CUFA.
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O Hip Hop é a principal forma de expressão da CUFA e serve como ferramenta de integração e inclusão social. Por ser um movimento que, há 20 anos, sobrevive se delineando nos guetos brasileiros mesmo sem o apoio da mídia, ele cresce e se fortalece a cada dia, arrebatando admiradores de todas as camadas sócio-econômicas e deixando para trás o rótulo de “cultura do excluído”. Ao longo de sua existência, o Hip Hop vem criando um movimento forte, atraente, com grande potencial, e segue abrindo portas para novos nichos comerciais ainda não explorados.
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Através de uma linguagem própria, a CUFA pretende ampliar suas formas e possibilidades de expressão e alcance. Assim, ela vai difundindo a conscientização das camadas desprivilegiadas da população com oficinas de capacitação profissional, entre outras atividades, que elevam a auto-estima da periferia quando levam conhecimento a ela, oferecendo-lhe novas perspectivas.Agindo como um pólo de produção cultural desde 1999, através de parcerias, apoios e patrocínios, a CUFA forma e informa os cidadãos do Rio de Janeiro e dos outros 25 Estados brasileiros, além do Distrito Federal. Dentre as atividades desenvolvidas pela CUFA, há cursos e oficinas de DJ; Break, Graffiti, Escolinha de Basquete de Rua, Skate, Gastronomia, Audiovisual e muitas outras. São diversas ações promovidas nos campos da educação, esporte, cultura e cidadania, com mão-de-obra própria.
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A equipe CUFA é composta, em grande parte, por jovens formados nas oficinas de capacitação e profissionalização das bases da instituição e oriundos das camadas menos favorecidas da sociedade; em sua maioria, moradores de comunidades carentes.
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Dentre as ações que imprimem legitimidade ao trabalho desenvolvido pela CUFA, vale a pena lembrar o já citado HUTÚZ – único evento de grande porte e expressão focado exclusivamente no Hip Hop, sendo um marco, um referencial para esta cultura. Além dele, existe a LIIBBRA – Liga Internacional de Basquete de Rua, que surgiu através de uma atitude orgânica dentro do HUTÚZ 2003, quando jovens improvisaram jogadas de basquete com uma cesta de lixo, o que fez com que esta modalidade esportiva ganhasse espaço no HUTÚZ 2004 e um campeonato nacional em 2005.
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Atualmente, CUFA, HUTÚZ e LIIBBRA são marcas de identidade singular, iniciativas sem precedentes, que fidelizaram seu próprio público. Pois, ainda que este não seja necessariamente ligado às áreas de atuação de cada uma dos eventos, a própria CUFA, enquanto instituição, faz a diferença.
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sábado, 30 de maio de 2009

Novos escravos da Europa

Alsacia: polonesas e romenas recebem 6 euros por 10 dias de trabalho


Anna Maria Merlo
Il Manifesto

Traduzido por Gorka Larrabeiti/Rosalvo Maciel

A uma semana das eleições européias, a noticia tenderá a aumentar se cabe a perplexidade e o desapego em relação à construção comunitária. A CGT denunciou há pouco as condições escandalosas de trabalho de um grupo de trabalhadoras agrícolas romenas e polonesas que recolhiam morangos e aspargos em Brumath, Alsacia. As jovens recebem cêntimos de euro por quilo, não mais de alguns euros por dia, sem respeito às leis francesas, que estabelecem um salário mínimo horário de 8,71 euros. Os inspetores de trabalho alsacianos abriram uma investigação e dezenas de estas pessoas, como conseqüência da denuncia da CGT, partiram em ônibus até seus países de origem. As trabalhadoras se alojavam em um acampamento levantado sobre um terreno lamacento, delimitado por uma vala. "Jaulas con vasos sanitários", afirma a CGT, que denuncia condiçoes de vida "desumanas" e "escravistas". O prefeito de Brumath, Etienne Wolff (do UMP, partido de Sarkozy) condenou este fato. O proprietário do terreno é um alemão de Freuenstadt, na Selva Negra, que está há anos alugando o terreno na Alsacia para produzir fruta e verdura, que logo vende a preços imbatíveis. O dono já havia sido condenado no passado por casos semelhantes, mas apelou (o que suspende a pena). "Quando visitamos este acampamento - dizem desde a CGT - tivemos a impressão de voltar ao passado. Esta situação desumana à qual submetem as mulheres vítimas da miséria através da exploração trabalhista deve cessar imediatamente".
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Original em: Libération
Versão espanhola em Rebelión

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Por trás das flores, covardes


A ditadura-civil militar terminou no Brasil. Mas o Brasil não se livrou dela. As duas décadas de arbitrariedade ainda moldam algumas mentes, geralmente as que estiveram acostumadas a torturar, seqüestrar e assassinar com o respaldo dos poderes público e privado. Ou as que se acostumaram a achar isto natural. Mas por que me recordo disto?


Ah, sim. No último final de semana estive numa exposição de orquídeas em Maricá, perto do Rio de Janeiro. Havia pelo menos uma centena de plantas logo ali, bem ao lado da praça da cidade. E floridas! Quem conhece a beleza de uma orquídea deve imaginar; todas as cores e formatos e perfumes... uma beleza!


Tudo corria dentro da normalidade até que os organizadores da exposição expulsaram uma cidadã que apreciava as flores. Motivo: ela carregava uma cestinha de biscoitos. A senhora era mulata, devia ter seus sessenta anos, e me disse que a botaram pra fora porque acharam que ela estava vendendo seus biscoitos lá dentro: “Mas eu só estava vendo as flores”.


Como se não bastasse, um dos organizadores tentou dificultar a vida de outro trabalhador informal. Lá de cima ele gritou: “Vou chamar a polícia! Aliás, deixa que eu mesmo vou aí embaixo!”. Desceu rapidamente para repreender o rapaz que panfletava no meio da rua, a uns 15 metros da porta do Esporte Clube Maricá, onde era realizada a exposição. Eu imediatamente me identifiquei como jornalista e perguntei a ele qual a razão dessa agressão num logradouro público. Ele: “Não reconheço em você autoridade nenhuma, não tenho nada a declarar”.

Sim, e qual a sua autoridade sobre a rua, um lugar público? Sem nenhuma preocupação por estar literalmente ao lado de uma delegacia de polícia, o sujeito ainda teve a coragem de ameaçar o panfleteiro e de me ameaçar junto antes de retornar para a exposição – ameaça que fiz questão de registrar na delegacia.


Detalhe importante: pouco depois fiquei sabendo que outro organizador da exposição é um coronel que serviu durante a ditadura, justamente no Araguaia, lugar onde cidadãos brasileiros foram brutalmente torturados e assassinados por agentes do Estado.


Para um cidadão agir desta forma contra dois trabalhadores não basta que seja um preconceituoso ingênuo ou um fascista convicto. É preciso mais. Pra quem alguém aja desta maneira nas relações cotidianas é preciso que tenha sido criado numa sociedade onde os sistemas de educação e informação são, no mínimo, coniventes com o fascismo social que mantém nosso país entre os mais atrasados do mundo em termos de cidadania e Direitos Humanos. Hipócritas, escondem-se atrás de belas imagens, flores inclusive, para que não assumam para si o peso da responsabilidade de suas prátic as violentas. Em essência, não passam de covardes.

Marcelo Salles é jornalista, coordenador da revista Caros Amigos no Rio de Janeiro, editor do Fazendo Media (www.fazendomedia.com) e membro do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.

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Click aqui e comente o texto no site da Caros Amigos

Coronel Curió irá a júri popular

Acusado de assassinar um menor de rua, com um tiro nas costas, em 1993, o coronel Sebastião Curió, será julgado por júri popular no próximo dia 05, em Sobradinho (DF). Além do menino assassinado, outro rapaz sofreu sérias lesões corporais.
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O julgamento estava previsto para 2008 no Tribunal de Justiça do Pará, mas foi adiado inúmeras vezes. Essa não é a única denúncia de atrocidades envolvendo o coronel. Em 1981, durante a ditadura militar, o acampamento da Encruzilhada Natalino foi cercado pelo Exército, comandado pelo coronel Curió, no Rio Grande do Sul. Ninguém poderia entrar, ninguém poderia sair. O acampamento foi declarado “área de Segurança Nacional”.
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Pouco antes disso, também durante a ditadura, Curió foi capitão do processo repressivo que resultou no sumiço dos 58 guerrilheiros do Araguaia, entre 1972 a 1975.
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Em 1980 ele retorna ao Pará, como interventor federal para “colocar ordem” no garimpo. Como ele mesmo conta, em entrevista concedida à UnB Agência em 2007: “Na época, eu era chefe do Setor de Informações do Exército e fui mandado para lá para conseguir conduzir aqueles homens numa política favorável ao governo. A intenção inicial não era dar apoio social nem comercial, mas sim político-ideológica.” E foi assim que ele “desviou” os trabalhadores de qualquer intenção de lutar por seus direitos. Oito anos depois, fundou um município na região do garimpo com seu nome, Curionópolis.
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Em abril deste ano, ele foi condenado a pagar R$ 1,1 milhão por improbidades administrativas ocorridas entre 2001 e 2004, durante sua penúltima gestão como prefeito do município. A decisão suspende os direitos políticos de Curió por cinco anos. Seu mandato como prefeito havia sido cassado em 2008 pelo Tribunal Superior Eleitoral. Ele foi condenado por compra de votos e abuso do poder econômico.
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Original em MST

Desencanto

José Saramago

Todos os dias desaparecem espécies animais e vegetais, idiomas, ofícios. Os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Cada dia há uma minoria que sabe mais e uma minoria que sabe menos. A ignorância expande-se de forma aterradora. Temos um gravíssimo problema na redistribuição da riqueza. A exploração chegou a requintes diabólicos. As multinacionais dominam o mundo. Não sei se são as sombras ou as imagens que nos ocultam a realidade. Podemos discutir sobre o tema infinitamente, o certo é que perdemos capacidade crítica para analisar o que se passa no mundo. Daí que pareça que estamos encerrados na caverna de Platão. Abandonamos a nossa responsabilidade de pensar, de actuar. Convertemo-nos em seres inertes sem a capacidade de indignação, de inconformismo e de protesto que nos caracterizou durante muitos anos. Estamos a chegar ao fim de uma civilização e não gosto da que se anuncia. O neo-liberalismo, em minha opinião, é um novo totalitarismo disfarçado de democracia, da qual não mantém mais que as aparências. O centro comercial é o símbolo desse novo mundo. Mas há outro pequeno mundo que desaparece, o das pequenas indústrias e do artesanato. Está claro que tudo tem de morrer, mas há gente que, enquanto vive, tem a construir a sua própria felicidade, e esses são eliminados. Perdem a batalha pela sobrevivência, não suportaram viver segundo as regras do sistema. Vão-se como vencidos, mas com a dignidade intacta, simplesmente dizendo que se retiram porque não querem este mundo.
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Publicado em O Caderno de Saramago

Essa velha rotina de torturar

Noam Chomsky

Os memorandos sobre torturas dados a conhecer pela Casa Branca têm gerado assombro, indignação e surpresa. O assombro e a indignação são compreensíveis, em particular os destacados pelo recentemente publicado Informe do Comitê Senatorial das Forças Armadas sobre Tratamento aos Detidos.

No verão de 2002, como revela o informe, os interrogadores em Guantánamo foram submetidos a uma pressão crescente dos níveis superiores na cadeia de comando para estabelecer um vínculo entre o Iraque e Al Qaeda. A aplicação do "submarino", entre outras formas de tortura, finalmente permitiu obter "a evidencia" de um detento, que foi usada para ajudar a justificar a invasão ao Iraque de Bush e Cheney no ano seguinte.

Mas, por que a surpresa acerca dos memorandos sobre a tortura? Mesmo sem que houvesse uma investigação, era razoável supor que Guantánamo era uma câmara de torturas. Que outra razão haveria para enviar prisioneiros a um lugar onde pudessem estar além do alcance da lei; um lugar, aliás, que Washington está usando em violação a um tratado que Cuba se viu obrigada a firmar sob a ameaça das armas? O argumento de que era questão de segurança é difícil de levar a serio.

Uma razão mais ampla do por que deveria haver escassa surpresa é que a tortura tem sido uma prática rotineira desde os primeiros dias da conquista do território nacional dos Estados Unidos, e mais tarde ainda, quando as incursões imperiais do "império infante" - como George Washington chamou à nova república - se estendeu às Filipinas, Haiti e outros lugares.

Por desgraça, a tortura foi o menor dos muitos crimes de agressão, terror, subversão e opressão econômica que tem obscurecido a historia dos Estados Unidos, em boa parte como tem sucedido com outras grandes potencias. As revelações atuais de tortura apontam, uma vez mais, ao eterno conflito entre "o que representamos" e "o que somos".

Traduzido por Rosalvo Maciel
Original em .Clarín

A defesa da Coréia & belicosidade dos EUA

Workers World
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Quem nos Estados Unidos prestar atenção ao noticiário dos media corporativos deve pensar que a República Democrática Popular da Coréia violou o Tratado Abrangente de Proibição de Testes. Certo?
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Só que tal tratado não existe.
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Uns 180 países assinaram-se, mas apenas 148 o ratificaram. Segundo o sítio web da Comprehensive Nuclear-Test-Ban Treaty Organization, "Todos os 44 Estados listados especificamente no Tratado – aqueles com capacidades de tecnologia nuclear no momento das negociações finais do Tratado em 1996 – devem assinar e ratificar antes de o CTBT entrar em vigor". (ctbto.org)
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Nove daqueles 44 Estados nucleares não ratificaram o tratado, apesar de o terem assinado a uns 13 anos atrás. Portanto, o tratado não está e nunca esteve em vigor.
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O governo que mais parece protestar quando um país como a RDPC efetua testes tem sede em Washington. Mas, será que pode imaginar? O Senado dos EUA não ratificou o tratado. De fato, é a recusa de Washington que constitui o principal obstáculo para o tratado CTBT entrar em vigor.
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Os EUA testaram as primeiras bombas atômicas do mundo em 1945 e quase imediatamente lançaram duas delas sobre cidades japonesas, matando 220 mil pessoas nos locais e deixando outras 200 mil tão envenenadas pela radiatividade que morreram logo após. Desde aquele tempo até assinarem o tratado em 1996, os EUA testaram 1032 armas nucleares.
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Este número de testes com ogivas é maior do que aquele que foi executado por todos os restantes países do mundo em conjunto, do início até o presente.
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Assim, como pode o mundo ter qualquer confiança num tratado de proibição de testes nucleares se o país que testou um número tão enormemente desproporcionado de armas não o ratificará?
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A RDPC efetuou com êxito dois testes subterrâneos de dispositivos nucleares, um em 2006 e outro em 25 de Maio. Ela não lançou quaisquer bombas sobre ninguém. De fato, as suas tropas nunca combateram em qualquer outro lugar senão a Coréia, e isso para expulsar invasores estrangeiros.
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A determinação da RDPC de dedicar recursos substanciais à construção de um dissuasor nuclear reflete a história trágica da Coréia. Primeiro invadida e anexada pelo colonialismo do Japão, a seguir ocupada pelas tropas dos EUA no fim da II Guerra Mundial, a Coréia sofreu terrivelmente com a ascensão do imperialismo no século XX.
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Os EUA criaram uma ditadura militar fantoche no Sul, a qual em 1948 declarou-se República da Coréia. Foi só então que as forças revolucionárias, que haviam libertado a parte norte da Coréia das garras de ferro do Japão, responderam declarando a constituição da RDPC, não como um Estado permanente que ratificaria a divisão da Coréia, mas como um reconhecimento da realidade. O objetivo da RDPC e do povo coreano como um todo sempre foi reunificar o país. Dentro de dois anos, contudo, a RDPC estava a combater uma nova guerra contra invasores imperialistas – desta vez centenas de milhares de tropas estadunidenses.
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Vários milhões de coreanos, civis e soldados, foram mortos na guerra de 1950-53. Uns 53 mil soldados americanos morreram. Embora a guerra acabasse num cessar-fogo com os dois lados aproximadamente onde estavam no princípio, os ocupantes estadunidenses da Coréia do Sul recusaram-se a assinar um tratado de paz com a RDPC. E assim as coisas permaneceram desde então, com 30 a 40 mil tropas dos EUA a ocuparem o Sul.
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Muitos países – o primeiro deles foram os Estados Unidos – declaram que tinham de ter armas nucleares para a autodefesa. Ninguém tem um direito mais forte a um dissuasor nuclear do que a RDPC, a qual durante mais de meio século enfrentou a ameaça constante de nova agressão da mais poderosamente armada superpotência imperialista.
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Se Washington fosse sincera acerca de querer avançar para um mundo livre do nuclear, ela começaria por assinar um tratado de paz com a RDPC, ratificar o CTBT e remover as suas tropas de ocupação da Coréia.
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Articles copyright 1995-2009 Workers World. Verbatim copying and distribution of this entire article is permitted in any medium without royalty provided this notice is preserved.
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Original em Workers World
Publicado em Resistir

Desnutrição golpeia crianças colombianos

Apesar de ser um país produtor de alimentos, Colômbia exibe hoje cifras alarmantes de desnutrição em sua população infantil, cujo flagelo provoca anualmente em média a morte de cinco mil crianças menores de cinco ano.
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O Fundo de Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e o Instituto Colombiano de Bem-estar Familiar (ICBF) qualificaram como grave a crise pela falta de alimentos para os infantes, sobretudo nas zonas rurais do país.
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Conforme com a diretora do ICBF, Elvira Forero, 12 em cada 100 famílias colombianas não estão em condições de garantir a alimentação de seus filhos, enquanto 17 em cada 100 padecem desnutrição no campo.
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Em tanto, oito em cada 100 crianças apresentam problemas de sob peso, o qual constitui uma ameaça para seu normal crescimento e desenvolvimento, segundo a fonte.
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Por sua vez, o representante da UNICEF na Colômbia, Paul Martin, advertiu que ao redor da terceira parte da mortalidade infantil de menores de cinco anos esta relacionada com a desnutrição.
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Estas cifras evidencian um facrasso da responsabilidade familiar, então o que se precisa é um plano de sensibilização, de priorização e que dentro deste palco o Estado responda, sublinhou.
Martin também assegurou que cerca de 12% da população infantil na Colômbia apresenta desnutrição crônica.
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Não vão morrer, mas sim sofrerão mentalmente e por isso estas crianças não vão estar em capacidade de oferecer à sociedade colombiana o cem por cento de suas habilidades, disse, depois de manifestar sua preocupação pelas estatísticas reveladas.
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A sua vez, informou que em um estudo realizado pela UNICEF na Colômbia desde o ano 2005, se descobriu que existem menores com sintomas de desnutrição a partir de três anos de idade.
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Ao resumir as funestas conseqüências deste flagelo, Martin indicou que essas crianças apresentarão cérebros atrofiados, pelo que exortou ao governo nacional e as prefeituras locais a prestar atenção a essa população.
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Uma criança que em seus três primeiros anos não seja alimentado de forma devida é uma pessoa que poderia ser improdutiva em toda sua vida, enfatizou.
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Colômbia como produtor principal de alimentos não pode deixar morrer crianças por causa da desnutrição, disse.
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As fontes também revelaram que os departamentos com maior incidencia pela baixa alimentação são Chocó, Boyacá, Guajira, Cauca, Cesar, Amazonas, Nariño, Casanare e Caldas.
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Esta problemática será analisada nos dias 3 e 4 de junho próximos durante o VIII Encontro de Governadores pela Infância, a Adolescência e a Juventude, que terá lugar em Bucaramanga, departamento de Santander.
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Em dita cita os governadores tratarão em torno das políticas públicas de segurança alimentária em suas respectivas regiões a fim de diminuir este flagelo.
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Além da fome, as crianças colombianos também sofrem de violência, abandono e pobreza.
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Segundo fontes especializadas, em 2005 apresentaram-se uns 29.900 casos de maltrato infantil, o qual supera as estatísticas de delitos como furto, lesões e seqüestros.
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Em tanto, mais de quatro milhões de infantes no país vivem na pobreza e não contam com serviço de saúde, educação e alimentação adequada, de acordo com cifras dadas a conhecer pelo Departamento Administrativo Nacional de Estatística.
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A todo isso se soma o flagelo da deslocação forçada interna, onde mais de 900 mil famílias se viram obrigadas a abandonar seus lugares de origem.
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Texto: Prensa Latina
Publicado em Pátria Latina

Colômbia contra Uribe

Unidade antifascista

O povo colombiano aumenta o protesto contra a política de direita de Álvaro Uribe. Ao lado dos trabalhadores, sindicatos e partidos da oposição comprometem-se a promover uma campanha contra a reeleição do atual presidente, responsável pelo terrorismo de Estado no país.
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Na quinta-feira, 21, milhares de pessoas concentraram-se frente ao ministério da Proteção Social, na capital, Bogotá, e frente às delegações governamentais em dezenas de outras cidades colombianas para exigirem respeito pelos direitos trabalhistas, melhores condições de vida e aumentos salariais justos e dignos. Os manifestantes reivindicaram igualmente a democratização da vida política, o fim da repressão oficial contra líderes operários e camponeses, e medidas concretas de proteção do emprego.
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Dados oficiais indicam que nos primeiros três meses de 2009, o número de desempregados na Colômbia ultrapassou os 2,4 milhões, 12,9 por cento da população ativa, um acréscimo significativo face ao mesmo período de 2008, quando a taxa era de 12,1 por cento, revelou Favio Arias, do comitê executivo da Central Unitária dos Trabalhadores (CUT).
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Outro elemento preocupante revelado pela maior central sindical do país alerta para o incremento da violência contra trabalhadores e líderes trabalhistas. Até Abril deste ano foram assassinados 17 dirigentes e ativistas sindicais. Na última década, a cifra ascende a 2711 executados por grupos armados vinculados ao governo de Álvaro Uribe, lembra a CUT.
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Nem o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) esconde a denúncia do terrorismo de Estado uribista. Em comunicado distribuído sábado, 23, a ACNUR manifestou «profunda preocupação pela recente onda de ameaças de morte contra defensores dos direitos humanos, ativistas e líderes de grupos de deslocados que trabalham para defender as suas comunidades», intimidação, continua a agência citada pela EFE, expressa «em milhares de panfletos distribuídos por todo o país». «Em alguns casos, as vítimas são forçadas a abandonar as respectivas localidades. Muitas vezes as ameaças de morte acabam concretizadas. Os sobreviventes, os seus familiares e colegas não denunciam as ameaças com medo das represálias», diz ainda o texto da ACNUR.
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A organização da ONU estima em mais de três milhões o número de deslocados em todo o país. O governo do Equador diz ter emitido nas últimas sete semanas 5500 vistos a refugiados políticos das zonas de fronteira com a Colômbia.
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Pela democracia contra o golpe
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Os protestos do final da semana passada juntaram-se a uma série de mobilizações de repúdio à política de direita do executivo colombiano levadas a cabo desde o início do mês de Maio (trabalhadores do setor bananeiro, das comunicações, educação, saúde, camponeses e comunidades indígenas), e ocorrem num contexto de reforço da unidade antifascista e pela democracia envolvendo a maioria das forças da oposição.
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A Grande Coligação Democrática colombiana – formada pelas principais centrais sindicais, organizações de reformados, camponeses e povos originários, estruturas juvenis e de base cultural, bem como pelos partidos Liberal e Pólo Democrático Alternativo – compromete-se a levar por diante uma campanha nacional contra a reeleição do atual presidente, isto depois do Senado ter aprovado um projeto de referendo para a alteração da Constituição, a qual permitiria a Álvaro Uribe recandidatar-se à presidência em 2010.
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O diploma ainda tem que transitar para a comissão de conciliação, uma vez que é ligeiramente diferente do documento ratificado anteriormente no parlamento, e, caso haja consenso, passar pelo escrutínio do Tribunal Constitucional. Mas as forças progressistas entendem que a campanha nacional de rejeição ao sufrágio e à recandidatura tem de começar imediatamente, de maneira a travar o passo ao poder proto-fascista que domina o país.
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A justeza e celeridade da orientação unitária é atestada, também, pelos fatos que rodearam a aprovação das referidas normas. A aprovação no Senado foi feita sem a presença dos eleitos do Pólo Democrático ou do Partido Liberal, e mesmo os 62 votos das forças uribistas foram conseguidos à custa de promessas de pagamentos feitas pelo o ministro de Interior, Fábio Valencia. Acresce que o Conselho Eleitoral colombiano terá que se pronunciar sobre as denúncias de irregularidades na coleta dos cinco milhões de assinaturas que sustentam a emenda constitucional e a realização de uma consulta popular para o efeito. Entre as irregularidades, está o financiamento da subscrição por parte de grupos ligados ao narcotráfico e aos esquemas financeiros piramidais, que deixaram milhares de pessoas sem as respectivas poupanças.
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Interesses acautelados
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«Tenho sido um combatente da democracia e quero dissipar qualquer dúvida perante a comunidade internacional. Creio que as instituições democráticas se fortaleceram neste governo», disse Uribe dois dias depois do Senado aprovar o projeto de referendo à Constituição. No fórum econômico onde proferiu estas declarações, o atual presidente colombiano manteve ainda o tabu sobre uma possível recandidatura, afirmando que «não quer ser lembrado pelas gerações mais jovens como um agarrado ao poder». As palavras de Uribe denotam prudência. Enquanto a possibilidade da recandidatura não for consumada, Uribe não dá um passo em falso.
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Entretanto, e acautelando os interesses do capital e dos EUA, o ministro da Defesa, Juan Manuel Santos, demitiu-se do cargo, dia 18, deixando claro que é a alternativa de segunda linha caso Uribe esteja impedido de concorrer ao Palácio Nariño. Santos é um dos falcões do regime e tem sido um dos mais fiéis executantes da política terrorista financiada por Washington, linha de ação que a administração Obama pretende continuar. De outra forma não se compreende por que é que a Casa Branca canaliza este ano, através dos departamentos de Estado e da Defesa, 623 milhões de dólares para atividades operacionais do exército da Colômbia.
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À dúvida sobre a aprovação da emenda constitucional no eventual sufrágio, soma-se o profundo desgaste político de Uribe. O presidente é o principal rosto do escândalo das escutas ilegais a juízes, políticos da oposição e jornalistas feitas pelos serviços secretos. Ainda no passado dia 15, o Supremo Tribunal de Justiça da Colômbia instou Uribe a aclarar a situação, bem como a garantir que tal não se voltará a repetir, isto para além de ter exigido que o governo agende uma data para que um relator da ONU visite o país e investigue os casos, negados reiteradamente pelo governo, mas confirmados recentemente por uma rádio colombiana que divulgou trechos das escutas feitas pela DAS.
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Por outro lado, a procuradoria-geral da Colômbia está a investigar o desaparecimento de quase dois mil homens que se julga tenham sido executados pelos militares fiéis ao governo e apresentados à comunicação social como guerrilheiros das FARC abatidos em combate(*). Numa audiência que decorre na localidade de Soacha, nos arredores de Bogotá, um ex-«recrutador» explicou que os jovens pobres da região eram aliciados com promessas de emprego. Posteriormente, eram vendidos ao exército por 88 dólares.
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O presidente Uribe entende que o Estado tem o dever de defender os militares e polícias acusados nos casos de «falsos positivos». No seu entender, os advogados de organizações de defesa dos direitos humanos que interpõem processos são pagos para acusarem falsamente a Colômbia de violação dos direitos humanos. Diz o homem que se apresenta à «comunidade internacional» como « um combatente da democracia», e considera que «as instituições democráticas se fortaleceram na Colômbia».
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(*) Essa prática é usada há dezenas de anos pelas forças imperialistas. Na guerra do Vietnam, qualquer civil assassinado pelas forças de ocupação era classificado como Vietcong; hoje no Iraque, Afeganistão, Palestina, Paquistão, da mesma forma, são ditos “terroristas” todos os civis mortos; o governo de Uribe aprimorou a técnica vestindo os cadáveres dos civis assassinados com uniformes das FARC-EP, no que são conhecidos como “falsos positivos”, isto é, falsos guerrilheiros, o que “justifica” suas mortes. N.P.
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Original em Avante!

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Governo dos EUA oposto a que Supremo Tribunal reveja caso dos Cinco

Alina Martínez


O presidente do Parlamento cubano, Ricardo Alarcón, disse que o governo dos EUA apresentou neste fim de semana sua resposta, opondo-se a que o Supremo Tribunal reveja o caso dos Cinco cubanos antiterroristas presos nesse país.

Salientou que agora os advogados de defesa dispõem de dez dias para a contestação até o início de junho, e depois, como parte do procedimento, vão se reunir os juízes do Supremo estadunidense, para decidir se aceitam ou não o caso.

Explicou que, se for aceita, essa máxima instância judicial deverá dar um veredicto neste ano que está decorrendo, no entanto, precisou que se deve levar em conta que sai de férias no verão.

Alarcón enfatizou sua admiração pela capacidade de resistência dos Cinco cubanos presos injustamente nos Estados Unidos, particularmente de Gerardo Hernández, condenado a duas penas de prisão perpétua, e mais 15 anos.

Anunciou que, nestes dias, a prisão de máxima segurança onde se encontra Hernández aplicou punição a todos os réus, incluído o anti-terrorista cubano, fato que já ocorreu em várias ocasiões nestes dez anos de prisão.

O presidente do Parlamento discursou perante personalidades da cultura e embaixadores de nações árabes e da Rússia, convidados ao 14º Festival de Poesia, promovido pela União dos Escritores e Artistas de Cuba (Uneac), entre os quais, o poeta moçambicano e grande amigo de Cuba, Marcelino dos Santos.

Alarcón compareceu no espaço mensal da Uneac por ocasião do 50º aniversário da Revolução Cubana, onde ressaltou o significado desta vitória de janeiro de 1959 na sua vida; lembrou a luta estudantil, o magistério de Raúl Roa e sua permanência em Nova Iorque como diplomata.

Minha obra naquele tempo foi a polêmica, a oratória e a defesa dos princípios da Revolução Cubana, expressou depois de revelar que sempre gostou de escrever e ainda escreve, mas não se considera um escritor.

Rendeu homenagem ao combatente Gerardo Abreu (Fontán), com quem muito aprendeu sobre história, cultura, revolução, e tivesse sido um relevante artista, mas sua vocação foi cortada ao ser assassinado pela ditadura de Fulgencio Batista, em 1958.

Original em Granma

quarta-feira, 27 de maio de 2009

45º Aniversario das FARC-EP

As circunstâncias políti-
cas são propícias para o
acionar do Movimento
armado e do Movimento
Bolivariano.
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Manuel Marulanda Vélez
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Neste pensamento de Manuel está retratada a alma das FARC como bandeira ao vento. Há 45 anos surgimos nas alturas de Marquetalia, a montanha da resistência dos povos, buscando a paz para a Colômbia, a justiça e a dignidade. Desde então somos a resposta armada dos despossuídos e dos justos às múltiplas violências do Estado.
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A paz é a nossa estratégia e o acionar do Movimento armado empunhando a bandeira da alternativa política é a tática para chegar a ela. Dizemo-lo também com a palavra de fogo de Bolívar: "a insurreição anuncia-se com o espírito de paz. Resiste ao despotismo porque este destrói a paz e não empunha as armas senão para obrigar os seus inimigos à paz". Por ela deram a sua vida Manuel Marulanda Vélez, Jacobo Arenas, Efraín Guzmán, Raúl Reyes, Iván Ríos e toda essa invencível legião de comandantes e combatentes aos quais hoje recordamos com veneração. Para todos eles, honra e glória neste aniversário das FARC.
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"Aquele que assegura a sua honra – dizia o Libertador – dedicando sua vida ao serviço da humanidade, à defesa da justiça e ao extermínio da tirania, adquire uma vida de imortalidade ao deixar o âmbito da matéria que o homem recebe da natureza. Uma morte gloriosa triunfa sobre o tempo e prolonga a sublime existência até à mais remota posteridade" ... É o que ocorre com todos eles, que apesar de haverem partido continuam vivos nos fuzis e no projeto político das FARC, com Bolívar a combater pela Nova Colômbia, a Pátria Grande e o Socialismo, ombro a ombro com o povo e seus guerrilheiros.
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Queremos o país vislumbrado pelo Manifesto das FARC e pela Plataforma Bolivariana pela Nova Colômbia. Queremos que ele surja de um Grande Acordo Nacional rumo à Paz rubricado por todas as forças dispostas a protagonizar a mudança das estruturas injustas e anacrônicas, sem exclusões. Emanado de um pacto social rodeado de povo que instrumente a articulação de uma alternativa política com vistas à conformação de um novo governo nacional, patriótico democrático, bolivariano, rumo ao socialismo. Sim, rumo ao socialismo, que é justiça e redenção dos povos! A arca de salvação da humanidade frente ao afundamento do sistema capitalista mundial.
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A dignidade da Colômbia e o resgate do sentimento de pátria reclamam uma nova liderança que privilegie a unidade e o socialismo ao avançar rumo ao futuro. Um novo grito de independência nos convoca, mostrando-nos o campo de batalha de Ayacucho do século XXI onde flameja a certeza do triunfo da revolução continental, a de Bolívar e dos nossos próceres.
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É hora de superar a vergonha nacional que representa um governo ilegítimo e ilegal, gerador de morte e pobreza. Um governo que, apoiado pelo de Washington, só atua para perpetuar a guerra e a discórdia enquanto garante a sangue e fogo a segurança investidora às transnacionais que saqueiam os nossos recursos. Um regime apátrida que, apesar do alto número de tropas norte-americanas que intervêm no conflito interno da Colômbia, permite que o nosso solo sagrado seja espezinhado por mais tropas estrangeiras, as expulsas de Manta, permitindo aos Estados Unidos operarem nesta terra uma base de agressão para o assalto aos povos irmãos do continente. Um governo desavergonhadamente narco-militar, que já não se importa perante as contundentes confissões de capos paramilitares que asseguram, como "Don Berna", haver financiado com dólares da cocaína as campanhas presidenciais de Álvaro Uribe Vélez. Um governo e um presidente que converteram o Palácio de Nariño em escuro antro de conspiração entre mafiosos para desestabilizar os Tribunais, obstruir a justiça e deixar sem efeito a independência dos poderes públicos. Que extraditou para os Estados Unidos dois chefes paramilitares quando estes começaram a vincular o séquito de Uribe, os generais, os empresários e os granadeiros à estratégia paramilitar do Estado que sangra a Colômbia.
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O país não sai do assombro perante o autismo da Promotoria, que prefere enterrar a sua cabeça na areia a fim de não empreender qualquer ação de responsabilidade penal contra as empresas Chiquita Brand – a mesma do massacre das bananeiras em 1928 –, a Drummond, Postobón, Brasilia, Carbones del Caribe..., denunciadas pelo chefe paramilitar Salvatore Mancuso como financiadoras do para militarismo. O mesmo chefe revelou que o massacre da Gabarra, no qual foram assassinados 40 camponeses, perversamente atribuído à guerrilha a fim de desprestigiá-la, foi realmente executado pelos paramilitares, pelo exército e pela polícia.
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A máscara caiu. A Uribe ronda-o insistente o fantasma de Fujimori, condenado no Peru a 25 anos de prisão por crimes de lesa humanidade. Prevê que os covardes assassinatos de civis não combatentes, estimulados pela insânia de mostrar a todo transe resultados com sangue da sua política fascista de segurança, não ficarão na impunidade. Clama justiça ao céu o deslocamento forçado de mais de 4 milhões de camponeses, o despojamento das suas terras, as milhares de fossas comuns e a vinculação do presidente a massacres de cidadãos indefesos. O chefe paramilitar que denunciou a responsabilidade direta de Uribe no espantoso massacre de El Aro, Antioquia, acaba de se assassinado para satisfação do tirano do Palácio de Nariño. Ele sabe que, cedo ou tarde, terá que responder pelos seus crimes.
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Deve ser revogado o mandato de um presidente que impôs o desonroso recorde de ter mais de 90% da sua bancada parlamentar vinculada ao processo da narco-parapolítica; que mantém como ministros de Estado delinqüentes subornados; que utiliza o poder para enriquecer os seus filhos, que converte o serviço diplomático em refúgio de assassinos como o tantas vezes denunciado general Montoya, e que promove referendos inconstitucionais para perpetuar-se no poder como mecanismo de fuga à justiça. Uribe é um verdadeiro bandido que se ampara por trás da faixa presidencial.
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Quantos problemas internacionais gerou a sua absurda pretensão de transnacionalizar a política fascista de segurança com a qual o governo da Colômbia arroga-se o direito de atuar extra territorialmente no desenvolvimento da sua visão particular e da sua estratégia contra-insurgente, por cima dos povos e dos seus governantes, pisoteando a soberania das nações e desestabilizando a região, sempre apoiado pelo governo de Washington.
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Quer incendiar o país indefinidamente com o fogo da guerra e da violação dos direitos humanos, aferrado à quimera do triunfo militar. Com inconseqüência nega a existência do conflito político e social, mas coloca a sua ilusão enfermiça no Plano Patriota do Comando Sul do Exército dos Estados Unidos, crendo inutilmente que a inconformidade social pode ser abatida a tiros e a tecnologia militar de última geração.
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Incrementar a base de força a mais de 450 mil eletivos por conta da maior ajuda militar dos gringos no hemisfério não o manterá no poder, porque assim o diz a experiência história e o bom senso. "Os povos que combateram pela liberdade exterminaram por fim os seus tiranos". Mas, além disso, um governo desprestigiado, atado à ilegitimidade e acossado pela crise do capitalismo mundial é um governo condenado ao fracasso.
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A Colômbia de hoje não quer o guerreirismo ultramontano do governo. Quer soluções para o desemprego e a pobreza crescentes. Reclama o investimento social, sacrificado no altar da guerra. Pede educação, habitação, saúde, água potável, direitos trabalhistas, terra, estradas, eletricidade, telefonia e comunicações, comércio de produtos, renacionalização das empresas que foram privatizadas, castigo da corrupção, soberania do povo, proteção do meio ambiente, democracia verdadeira, liberdade de opinião, libertação de presos políticos, fim à extradição irracional de nacionais que mantém de joelhos a soberania jurídica, informação veraz, relações internacionais de respeito recíproco entre as nações, integração e Pátria Grande, justiça social e paz.
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Uribe tem, como o diabo à água benta, o clamor crescente dos que pedem paz, castigo aos crimes de Estado e novo governo. Por isso exige com angústia que o tema da paz seja proscrito do debate eleitoral que se avizinha. É a loucura e o absurdo transfigurados num mandatário que quer encadear o país aos seus ódios e ressentimentos. Ninguém poderá desligar de um projeto de nova sociedade e novo governo a paz a que anseiam as maiorias nacionais. Ela é a bandeira que unirá os colombianos contra a tirania, a guerra e a injustiça.
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Devemos estar todos alerta para impedir a manobra uribista de mudar o atual Registrador Nacional por um dos seus serventuários. A única esperança do guerreirismo desgrenhado perante o anseio das maiorias é a fraude. E é o que devemos impedir agora, uma vez que este foi amo e senhor das eleições de 2002 e de 2006. A reeleição de Uribe é um asqueroso monumento à fraude e ao roubo erguido pelo ex-diretor do DAS, Jorge Noguera, e pelo capo narco-paramilitar Jorge 40. Nas 4 milhões de assinaturas recolhidas pelos uribistas em favor do referendo com apoio de dinheiros de DMG estão estampadas as assinaturas de um milhão e meio de mortos. Isso é fraude e roubo.
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Fraude à opinião pública é também a peregrina fábula da derrota militar da guerrilha, argumento falacioso, parente dos "falsos positivos", utilizado no fundo para justificar os terríveis desaforos do Estado contra a população civil. Como sempre quiseram com Manuel Marulanda Vélez, quiseram matar as FARC com os fuzis do desejo e o ensurdecedor matraquear das rotativas. Nenhuma guerrilha pode ser exterminada com disparos de tinta. Não há era do pós-conflito senão no sonho delirante do guerreirismo sem futuro de um regime em decadência.
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Das montanhas da resistência, como temos vindo a fazer desde há 45 anos, convocamos os colombianos a mobilizarem-se resolutamente pela paz, a paz que nos negaram os santanderistas e o império washingtoniano quando mataram Bolívar e a Colômbia da unidade dos povos em 1830. O passado conta na construção da sociedade futura. Ninguém nos pode desligar do destinado assinalado pelo Libertador nas origens da República. A incitação do senador Álvaro Gómez Hurtado em princípios da década de 60 a submeter a sangue e fogo o que considerou "República Independente de Marquetalia" não foi suficiente para entender que os problemas nacionais não se solucionam através da violência do Estado. Há que construir uma Nova Colômbia sobre o sólido cimento da paz concertada.
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O Grande Acordo Nacional Rumo à Paz deve ter como norte estratégico a formação de um novo governo que garanta ao povo "a maior soma de felicidade possível, a maior soma de garantias sociais e a maior soma de estabilidade política", como exigia o Libertador. Um governo patriótico, democrático, bolivariano, rumo ao socialismo, como assinala da Plataforma Bolivariana pela Nova Colômbia.
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Como garantia de paz e de soberania nacional devemos erigir novas Forças Armadas compenetradas da doutrina militar bolivariana que inculca o amor ao povo e o ódio à tirania. Não devemos esquecer que o exército patriota foi o criador da Colômbia e da República nas fulgurantes vitórias de Boyacá e de Carabobo, e que seu comandante Bolívar definiu-o como "defensor da liberdade", acrescentando que "as suas glórias devem confundir-se com as da república, e sua ambição deve ficar satisfeita ao fazer a felicidade do seu país". Assim devem ser as novas Forças Armadas e estamos seguros de que muitos dos atuais oficiais sonham desempenhar esse papel.
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Solidarizamo-nos com a luta justa das famílias dos soldados regulares que reclamam o direito e não serem obrigados a entrar em combate mortal com a guerrilha. A guerra que o governo nega para não reconhecer o caráter político da insurgência que luta pelo poder, apenas no mês de Março produziu 297 militares mortos e 340 feridos. Conclamamos aos soldados a que não se deixem utilizar mais como carne de canhão defendendo interesses que não são os seus e sim de uma oligarquia podre e criminosa, insolidária, que muito pouco faz por eles se caem prisioneiros ou ficam mutilados. Estados seguros que os seus familiares também quiseram gritar ao governo, com o professor Moncayo, que os seus filhos não foram paridos para a guerra da oligarquia.
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Para alcançar o objetivo da Colômbia Nova é necessário reorganizar o Estado na base da soberania do povo, tal como concebeu o Libertador em Angostura. Aos três ramos do poder público devemos acrescentar os poderes moral e eleitoral, instituindo a revogação do mandato em todas as instâncias de eleição popular. Não mais cópias de leis estrangeiras para resolver os nossos assuntos internos. Não mais sistema penal acusatório. Exigimos um novo governo que castigue exemplarmente a corrupção e feche espaços à impunidade, que proscreva a política neoliberal que causa nossas desgraças econômicas e sociais. O país e o governo que sonhamos devem assegurar o controle dos ramos estratégicos, estimular a produção em suas diversas modalidades, fazer respeitar a nossa soberania sobre os recursos naturais. Tornar realidade a educação gratuita em todos os níveis, levar justiça ao campo com uma verdadeira reforma agrária que gere emprego e soberania alimentar e semear a infraestrutura do progresso nacional. Os contratos com as transnacionais que sejam lesivos para a Colômbia devem ser revistos, assim como os pactos militares, os tratados e convênios que manchem a nossa soberania devem ser anulados. Neste mesmo sentido o país não tem porque pagar a dívida externa naqueles empréstimos viciados de dolo em qualquer das suas fases. Solução não militar nem repressiva ao problema social da narco produção. A nossa política internacional deve reorientar-se rumo à integração solidária dos povos da Nossa América na Pátria Grande bolivariana, e o Socialismo.
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A etapa definitiva da luta pela paz começou. O povo colombiano não pode afrouxar até que seja concretizado este direito.
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Com Bolívar, com Manuel, com o povo, ao poder! Manuel vive na luta do povo colombiano.
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Juramos vencer e venceremos.
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Secretariado do Estado Maior Central das FARC-EP Montanhas da Colômbia, Maio de 2009
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O original encontra-se em http://www.resumenlatinoamericano.org/ , nº 2012
Este comunicado encontra-se em http://resistir.info/ .

Mudança credível


“A guerra do Afeganistão é uma guerra de ocupação e dominação imperialista, acompanhada dos habituais crimes. Longe das manchetes, no mês cinco da presidência Obama, ocorreu uma das maiores chacinas de civis cometidas pelas tropas de ocupação norte-americanas…”


Jorge Cadima*

Pela calada, sem destaque na comunicação social de regime, mais um país e o seu povo estão sendo vítimas da infernal máquina de guerra do imperialismo norte-americano e seus serventuários. A guerra desencadeada pelos EUA no Afeganistão já se alastrou ao vizinho Paquistão, aliás, como Obama deixou entender durante a sua campanha eleitoral. «As Nações Unidas afirmam que quase um milhão de pessoas fugiram (das suas casas no vale de Swat) nas últimas duas semanas. O número total de desalojados internos no Paquistão nos últimos 12 meses cresceu para 1,4 milhões» (BBC, 15.5.09). Nas poucas notícias sobre este desastre humanitário repetem-se as habituais desculpas superficiais, baseadas na fraseologia e propaganda da bushiana “Guerra ao Terrorismo”. Fala-se em talibãs e fundamentalismos. Mas não se explica como é que após oito anos de guerra e ocupação dos EUA/NATO no Afeganistão, fundamentalistas medievais estariam, não apenas a colocar as mais sofisticadas e bem-equipadas forças armadas do planeta na defensiva, como a se alastrar para um país vizinho. Como é hábito, a história está mal contada.

A guerra do Afeganistão é uma guerra de ocupação e dominação imperialista, acompanhada dos habituais crimes. Longe das manchetes, no mês cinco da presidência Obama, ocorreu uma das maiores chacinas de civis cometidas pelas tropas de ocupação norte-americanas: «uma incursão aérea dos EUA no Afeganistão terá morto até 100 civis, incluindo muitas mulheres e crianças» (Al Jazeera, 7.5.09). O Comitê Internacional da Cruz Vermelha foi investigar e confirmou: «dezenas de pessoas foram mortas incluindo mulheres e crianças. Podemos confirmar com certeza que houve mortos civis», incluindo «um voluntário do Crescente Vermelho Afegão que foi morto com outros 13 membros da sua família» (AFP, 8.5.09). A reação popular foi violenta: «Gritando “Morte à América” e “Morte ao Governo”, milhares de aldeões afegãos atiraram ontem pedras à polícia, exprimindo a sua cólera pelos ataques aéreos americanos que responsáveis locais afirmam ter morto 147 civis. Os distúrbios começaram quando pessoas de três aldeias atingidas pelos bombardeiros dos EUA [...] trouxeram num caminhão 15 corpos recém-descobertos para a casa do governador provincial. [...] Está a tornar-se claro, com base nos relatos dos sobreviventes, que não se tratou dum ataque curto por parte de alguns aviões [...], mas de um bombardeamento contínuo em que três aldeias foram arrasadas. [...] isso explica que haja tantos mortos, mas apenas 14 feridos» (The Independent, 8.5.09). Não estamos perante um incidente isolado. Aliás, «aviões da Força Aérea, Marinha e de outros (países) da coligação lançaram um número recorde de bombas sobre o Afeganistão em Abril» (Navy Times, 4.5.09). E bombardeiam também no Paquistão. É para esta guerra dos EUA/NATO que José Sócrates quer enviar mais soldados portugueses (Público, 4.4.09). A poucos dias das eleições européias, convém não esquecer que o “Tratado de Lisboa” institucionaliza a ligação União Européia-NATO.

O reavivar do militarismo é, como não podia deixar de ser, acompanhado por um maior enfeudamento de Obama aos crimes de guerra. Depois de enviar mais 17 mil soldados para o Afeganistão, depois de declarar que não vai castigar os agentes da CIA responsáveis por torturas, nem divulgar mais (e mais terríveis) fotografias dos horrores praticados pela “mãe de todas as democracias ocidentais e economias de mercado” (para “não afetar o moral dos militares e agentes da CIA”), agora «Obama vai reavivar julgamentos militares de alguns presos na Baía de Guantánamo» (BBC, 15.5.09). Os mesmos que tinha mandado parar logo após tomar posse, afirmando que «os EUA estavam entrando numa nova era de respeito pelos direitos humanos». Pelos vistos, foi respeito com a duração de um sound byte.

É cada vez mais evidente que a «mudança em que podemos acreditar» prometida durante a campanha de Obama, só surgirá através da resistência protagonizada pelos povos do mundo (incluindo o dos EUA), e da sua luta para pôr fim ao mais poderoso, criminoso e maquiavélico sistema de dominação imperialista, fonte primeira de guerra, crise e miséria.

* Analista político
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Original em O Diário.info

terça-feira, 26 de maio de 2009

Antes tarde do que nunca...

Duas pessoas detidas pelo assassinato do cantor comunista chileno Victor Jara

Duas pessoas foram detidas no Chile por sua pressuposta vinculação com a morte do cantor e compositor comunista Víctor Jara, assassinado em 1973, dias depois do golpe de Estado de Augusto Pinochet, segundo informa hoje o diário La Nación. Até o momento, só uma pessoa permanecia acusada como autora do assassinato de Jara, cuja morte se converteu em um símbolo das violações aos diretos humanos durante a ditadura (1973-1990). Os detidos, ambos de 54 anos, permanecem incomunicáveis na Prisão de Alta Segurança de Santiago, para onde foram levados após declarar ante o juiz Juan Fuentes Belmar no Palácio dos Tribunais por sua suposta participação nesse fato.

La Nación/insurgente

O magistrado tem prazo até hoje para resolver se os submete a processo, na qualidade de autores, cúmplices ou coniventes, ou se os deixa em liberdade por falta de provas que os incriminem nesse assassinato. Segundo o diário, um dos detidos confessou sua participação no fuzilamento do cantor e colaborou na descrição do episódio que terminou com a vida de Víctor Jara no Estádio Nacional do Chile. Em maio do ano passado, o juiz Fuentes Belmar fechou o sumario com um único acusado como autor do homicídio, o coronel do exército da reserva Mario Manríquez Bravo, o qual foi diretor do campo de prisioneiros no que foi transformado esse recinto desportivo.
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A investigação foi reaberta no início de junho, quando o magistrado acolheu grande parte das quarenta diligencias solicitadas dias antes pelo advogado querelante e representante da família, Nelson Caucoto. O autor de El Derecho de Vivir en Paz e de Te recuerdo Amanda morreu a 15 de setembro de 1973 e, segundo detalha a investigação judicial, foi brutalmente agredido e torturado, suas mãos sofreram golpes de coronhas de fuzis e depois foi assassinado com 44 disparos em todo seu corpo.
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A viúva de Jara, Joan Turner, a qual desde ha 35 anos é conhecida como Joan Jara, fez nessa ocasião um chamamento às 5.000 pessoas que estiveram nesse centro entre 11 e 15 de setembro de 1973 para que contribuíssem com provas. "O assassinato de Víctor é um símbolo mundial das violações aos direitos humanos, esclarecer o que se passou seria um triunfo, uma demonstração de que não pode haver impunidade para os crimes contra a humanidade", declarou Joan Jara.
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Original em inSurGente
Tradução: Rosalvo Maciel

segunda-feira, 25 de maio de 2009

25% da população iraquiana vive abaixo do limiar de pobreza

Entre os 20 e os 25% da população iraquiana, estimada nos 27 milhões de habitantes, vivem com menos de 2,2 dólares por dia, segundo um estudo feito pelo governo fantoche do Iraque, segundo afirmou o ministro iraquiano do planeamento. Este membro do governo disse que os resultados do estudo feito superavam as suas expectativas. O maior índice de pobreza verifica-se nas zonas rurais, sendo a província de Muthana, a sul, onde a população é mais pobre, com um índice de 49%, seguida pelas províncias de Babil e de Salaheddin, na zona centro, com 41% e 40%, respectivamente.
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Nada se pode improvisar no Haiti

Li faz cinco dias, um despacho noticioso informando que Ban Ki-moon nomearia a Bill Clinton como seu enviado especial para o Haiti.
“Clinton acompañhou no pasado mes de março ao Secretario General a uma visita oficial de dois dias ao Haiti –-afirma o despacho— para apoiar o plano de desenvolvimento elaborado pelo Goerno de Porto Príncipe, que busca despertar da letargia economía haitiana.
“O ex-presidente tem mantido um notável compromisso filantrópico com a nação antilhana através da Iniciativa Global Clinton.
“É uma honra aceitar o convite do Secretário Geral para ser o enviado especial para o Haiti”, declarou o ex-mandatário.
“Clinton assinalou que o povo e o Governo do Haiti têm a capacidade de superar os graves danos que causaram as quatro tormentas que arrasaram o país no ano passado.”
No dia seguinte, a mesma agencia noticiosa informava que a senhora Clinton, Secretária de Estado, cheia de júbilo, declarou que “Bill era um enviado extraordinário”. Por sua parte, “o Secretario da ONU confirmou que havia nomeado a Clinton como seu novo enviado especial para o Haiti. Estivemos juntos faz dois meses nesse país e sua presença ajudou a levantar a consciência da comunidade internacional sobre os problemas do país caribenho.
“A ONU teme que após um período de vários anos de relativa calma apoiada pela MINUSTAH a instabilidade política volte ao país.”
Volta-se a repetir no novo despacho a historia “dos quatro ciclones e tormentas que causaram 900 mortos, ocasionaram 800 mil flagelados e destruíram a escassa infra-estrutura civil do país”.
A historia do Haiti e sua tragédia é muito mais complexa.
Depois dos Estados Unidos que proclamou a soberania em 1776, o Haiti foi o segundo país deste hemisfério que conquistou a independência no ano de 1804. No primeiro caso, os descendentes brancos dos colonos que fundaram as 13 colônias inglesas, crentes fervorosos, austeros e instruídos, que eram proprietários de terras e de escravos, sacudiram o jugo colonial inglês e desfrutaram da independência nacional, mas não a população autóctone, nem os escravos africanos ou seus descendentes, que careciam de qualquer direito, apesar dos princípios incluídos na Declaração da Filadélfia.
No Haiti, onde mais de 400 mil escravos trabalhavam para 30 mil proprietários brancos, pela primeira vez na historia da humanidade os homens e mulheres submetidos ao odioso sistema foram capazes de abolir a escravidão, manter e defender um estado Independiente, lutando contra soldados que haviam posto de joelhos às monarquias européias.
Aquela etapa coincidiu com o auge do capitalismo e o surgimento de poderosos impérios coloniais, que dominaram as terras e os mares do planeta durante séculos.
Os haitianos não foram os culpados de sua atual pobreza, mas as vítimas de um sistema imposto ao mundo. Não inventaram o colonialismo, o capitalismo, o imperialismo, o intercambio desigual, o neoliberalismo nem as formas de exploração e rapina que tem imperado no planeta durante os últimos 200 anos.
O Haiti dispõe de 27.750 quilômetros quadrados de superfície onde, segundo estimativas confiáveis, a população alcançou já, em 2009, a cifra de 9 milhões de habitantes. O número de pessoas por quilômetros quadrado de terra cultivável se eleva a 885, um dos mais altos do mundo, sem desenvolvimento algum de indústrias ou outros recursos que lhe permitam adquirir o mínimo de meios materiais indispensáveis para a vida.
Cinqüenta e três por cento da população vive no campo, a lenha e o carvão constituem o único combustível doméstico disponível para grande parte das famílias haitianas, o que dificulta o reflorestamento. A ausência de bosques, que com o solo permeável pelas folhas, ramos e raízes, retém a água, facilita as perdas humanas e econômicas que as chuvas intensas ocasionam em povoações, caminhos e cultivos. Os furacões, como é sabido, causam danos adicionais consideráveis, que serão cada vez maiores se o clima continuar mudando aceleradamente. Não é um secredo para ninguém.
Nossa cooperação com a população do Haiti começou faz dez anos, quando precisamente os furacões George e Mitch açoitaram o Caribe e a países da América Central.
René Preval exercia o cargo de Presidente de Haiti e Jean-Bertrand Aristide era chefe de Governo. O primeiro contingente de 100 médicos cubanos foi enviado a 4 de dezembro de 1998. O número de colaboradores cubanos da saúde no Haiti se elevou posteriormente a mais de 600.
Foi naquela ocasião quando se criou a Escola Latino-americana de Medicina, ELAM, onde estudam atualmente mais de 12 mil jovens latino-americanos. A partir de então se concederam aos jovens haitianos centenas de bolsas de estudo na Faculdade de Medicina de Santiago de Cuba, uma das mais completas do país.
No Haiti o número de escolas primarias havia crescido e ia avançando. Até as famílias mais humildes querem que seus filhos estudem, como única esperança de que possam sobreviver à pobreza trabalhando dentro ou fora de seu país. O programa cubano de formação de médicos foi bem recebido. Os jovens selecionados para estudar em Cuba tinham boa preparação básica, herança talvez dos avanços da França nesse terreno. Deviam empregar um ano no curso pré-médico, que incluía também o idioma Espanhol. Constituiu-se uma boa equipe de médicos de qualidade.
Em nossas faculdades médicas se tem graduado como especialistas em Medicina Geral Integral 533 jovens haitianos, desses, 52 estudam em Cuba uma segunda especialidade que se necessita atualmente. Outro grupo de 527 ocupam as matrículas que correspondem à República de Haiti.
Nesse país trabalham na atualidade 413 profissionais cubanos da saúde que prestam gratuitamente seus serviços a esse povo irmão. Os médicos cubanos estão presentes nos dez departamentos do país e em 127 das 137 comunidades. Também prestam serviços mais de 400 médicos haitianos formados em Cuba, e os alunos do último ano que realizam a prática docente no próprio Haiti ―junto a nossos médicos―, o que faz um total de mais de 800 jovens haitianos consagrados aos serviços médicos em sua Pátria. Essa força crescerá cada vez mais com os novos graduados haitianos.
O desafio foi duro, os médicos cubanos se encontraram com problemas difíceis. A mortalidade infantil era superior a 80 para cada mil nascidos vivos, expectativa de vida estava abaixo dos 60 anos, a prevalência da Sida na população adulta no ano de 2007 alcançava a cifra de 120 mil cidadãos. Dezenas de milhares de crianças e adultos de diversas idades morrem ainda cada ano por enfermidades infecto-contagiosas como tuberculose, malaria, diarréias, dengue e por desnutrição, para assinalar só alguns índices. O próprio VIH é já uma enfermidade que se pode enfrentar e garantir a vida dos pacientes. Mas isto não se consegue em um ano; é imprescindível uma cultura de saúde, que o povo haitiano adquire com crescente interesse. Observam-se avanços que demonstram a possibilidade de melhorar consideravelmente os índices de saúde.
Em três centros oftalmológicos criados no Haiti, já foram operados da vista 37109 pacientes. Os casos que ali não podem operar-se por sua complexidade, se enviam a Cuba, onde são atendidos sem custo algum.
Com a cooperação econômica da Venezuela, se estão criado 10 Centros de Diagnóstico Integrais, equipados com tecnologia moderna que já está adquirida.
Mais importante que os recursos que a comunidade internacional possa aportar, é o pessoal humano que utilize tais recursos.
Nosso modesto apoio ao povo do Haiti tem sido possível a pesar de que os ciclones de que falou Clinton nos golpearam também. Uma boa prova de que o que tem faltado no mundo é a solidariedade.
Poderia falar-se igualmente do aporte cubano aos programas de alfabetização e em outros campos, apesar de nossos limitados recursos econômicos. Mas não desejo entender-me nem é desejável fazê-lo para falar de nossa ajuda. Concentrei-me na saúde, porque é um tema necessário. Não tememos que outros façam o que estamos fazendo. Os jovens haitianos que se formam em Cuba estão convertendo-se nos sacerdotes da saúde, que em número crescente esse povo irmão requer.
O mais importante é a criação de novas formas de cooperação que este mundo egoísta tanto necessita. Os organismos das Nações Unidas podem testemunhar que Cuba está contribuindo para o que eles qualificam como Programas Integrais de Saúde.
Nada se pode improvisar no Haiti e nada será fruto do espírito filantrópico de instituição alguma.
Ao projeto da Escola Latino Americana de Medicina, se acrescentou mais tarde o novo programa de formação em Cuba de médicos procedentes da Venezuela, Bolívia, Caribe, e outros países do Terceiro Mundo, à medida que seus programas de saúde o demandavam com urgência. Hoje ultrapassa a cifra de 24 mil jovens do Terceiro Mundo os que estudam Medicina em nossa Pátria. Ajudando a outros nos temos desenvolvido também nesse campo, e constituímos uma importante força. Isso, e não o roubo de cérebros é o que praticados! Podem afirmar o mesmo os países ricos e super desenvolvidos do G-7? Outros seguirão nosso exemplo! Que ninguém duvide!

Fidel Castro Ruz
Maio 24 de 2009
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Tradução: Rosalvo Maciel

domingo, 24 de maio de 2009

Governo e trabalhadores resistem

O governo da Venezuela anunciou que vai intervir no maior banco do país. A iniciativa tem o apoio dos trabalhadores da instituição e ocorre no contexto de uma intensa campanha mediática anti-bolivariana.
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A correção de erros de gestão classificados de graves pelo ministro das Finanças, Alí Rodriguez, fundamenta a intervenção governamental no Banco Industrial da Venezuela (BIV), onde a maioria do capital, 73 por cento, pertence ao Estado. Outro dos objetivos é garantir que o banco se mantenha como uma ferramenta eficaz e em prol dos interesses populares e do processo bolivariano, revelou Rodriguez.
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Reagindo à medida, o Sindicato Nacional dos Trabalhadores do BIV (SNTBIV) sublinhou que já havia alertado para as orientações promovidas pela administração, e acusou os responsáveis do Banco de trabalharem para as forças contra-revolucionárias, estarem ao serviço e do setor privado, defraudando, assim, os clientes, os trabalhadores e o povo venezuelano em geral.
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Para o SNTBIV, para além do rumo empresarial seguido não ser conforme às orientações governamentais, os executivos (entre os quais o impressionante número de 72 vice-presidentes), gozam de privilégios inadmissíveis, enquanto os trabalhadores enfrentam ataques aos seus salários e direitos.
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Guerra sem tréguas
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A intervenção estatal no BIV enfrentando as forças anti-bolivarianas ocorre no contexto de uma campanha contra-revolucionária sem tréguas contra o governo liderado por Hugo Chávez. Nem mesmo a Provedora de Justiça, Gabriela Ramirez, conteve a indignação perante a operação em curso e acusou a estação televisiva Globovision de promover o medo entre a população como parte de uma política editorial baseada em ataques contra o presidente e o executivo. A Globovision oculta e deturpa a ação do governo, ao mesmo tempo que promove e sublinha de forma parcial e desequilibrada as ações da oposição, disse ainda.
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No mesmo sentido pronunciou-se o Conselho Nacional de Comunicadores e Comunicadoras Socialistas (CNCS). Para aquela estrutura, grupos da oposição, representantes políticos da direita, grupos econômicos e hierarquia da igreja católica têm os seus intentos suportados por uma vergonhosa intervenção das empresas de comunicação. Respondendo a uma agenda política, levam a cabo uma campanha mediática interna e externa visando atacar o povo e o governo democraticamente eleito, cobrindo, por exemplo, atos de vandalismo como o incêndio da sede da Pdval, em Caracas, ou defendendo o ex-presidente da Câmara de Maracaíbo.
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Recorde-se que Manuel Rosales perdeu as últimas eleições presidenciais para Chávez por uma diferença de mais 3 milhões e cem mil votos. Atualmente, o líder do partido Um Novo Tempo aguarda um pedido de asilo ao Peru depois de fugir às autoridades judiciais, as quais investigam as suas declarações de rendimentos entre 2002 e 2004. Rosales é acusado de enriquecimento ilícito.
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Ao invés, os dirigentes revolucionários e as conquistas do processo bolivariano são truncadas e caluniadas pelos órgãos de comunicação privados, diz ainda o CNCS.
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Trabalhadores enfrentam repressão
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No comunicado, o CNCS lembra ainda que os trabalhadores de alguns dos órgãos de comunicação social que se identificam com o processo revolucionário estão sujeitos a perseguições e à demissão compulsória. Recentemente, o Canal I mandou para a rua dezenas de profissionais pró-bolivarianos, entre cerca de 150 outros funcionários englobados num alegado processo de reestruturação.
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Para o capital venezuelano e multinacional, os trabalhadores e as suas organizações são um alvo a abater, e não apenas nas empresas de comunicação social. Recentemente, o dirigente sindical da Toyota e respeitado líder operário Argenis Vásquez foi assassinado. O caso encontra-se a ser investigado, mas um jornal venezuelano noticiou prontamente que Vásquez estava envolvido numa suposta máfia de tráfico de veículos. O sindicato do setor automotivo rejeitou liminarmente as acusações do semanário e exigiu respeito pela memória de Vásquez.
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Original em Avante!

sábado, 23 de maio de 2009

Haiti

Bill Clinton é nomeado novo Enviado de Nações Unidas para 'estabilizar' o Haiti, um país que ele ajudou a desestabilizar


Jeremy Scahill

Traduzido por Beatriz Morales Bastos/Rosalvo Maciel

O Secretário Geral das Nações Unidas Ban Ki-moon nomeou o ex-presidente Bill Clinton seu Enviado Especial das Nações Unidas ao Haiti (1). Segundo se informou, Clinton viajará ao país pelo menos quatro vezes por ano.

“É uma oportunidade de levar recursos para tratar a insegurança econômica que assola o Haiti”, afirma Brian Concannon (2), um advogado de direitos humanos que trabalha exaustivamente no Haiti. “Mas se a nomeação for algo mais do que um ardil publicitário, as Nações Unidas tem que lançar honestamente um raio de luz sobre o papel desempenhado pela comunidade internacional em criar a dita desestabilização, incluindo políticas comerciais e de dívidas injustas, e a destruição e derrubada do governo constitucional do Haiti”.

Lançar este raio de luz sobre os que criaram a desestabilização, como sugere Concannon, significaria examinar o papel que desempenhou o próprio Clinton como presidente de Estados Unidos durante um dos períodos mais horrivelmente obscuros do Haiti.

A agência de notícias Reuters (3) cita um diplomata que afirma que Clinton é “uma excelente escolha para ajudar a abrir as possibilidades do Haiti como um objetivo de investimento” e acrescentou que sua nomeação “poderia atrair o investimento na nação mais pobre do hemisfério ocidental e ajudar a estabilizar o país”.

Esta última afirmação de “estabilizar” o Haiti seria cômica pelo irônico se a realidade e a historia de Clinton no Haiti não fossem tão mortalmente sérias. O fato é que como presidente de Estados Unidos, as políticas de Clinton ajudaram sistematicamente a desestabilizar o Haiti.

Dan Coughlin, que nos anos noventa trabalhou vários anos como jornalista para Inter Press Service no Haiti, afirmou que não “podia crer” quando ouviu a noticia. “Dada a agressiva atividade da administração Clinton para prosseguir com as políticas que beneficiaram à muito reduzida elite do Haiti, ao FMI e às grandes corporações a expensas dos agricultores e trabalhadores urbanos do Haiti, a nomeação não augura nada bom para o tipo de mudança fundamental tão necessária em um país que tanto tem dado à humanidade”, afirmou Coughlin.

Em setembro de 1991 os Estados Unidos apoiou a violenta derrubada do governo haitiano, eleito democraticamente, do sacerdote de esquerda Jean Bertrand Aristide ao fim de menos de um ano no poder. Nas eleições presidenciais de 1990 Aristide havia derrotado ao candidato respaldado pelos Estados Unidos. Os chefes do golpe militar e seus bandos paramilitares de capangas assassinos apoiados pela CIA, incluindo as tristemente célebres unidades paramilitares FRAPH, eram conhecidos por esquartejar os seguidores de Aristide (e a outras pessoas), alem de uma série interminável de outros horríveis crimes.

Quando Clinton chegou ao poder tomou medidas em relação ao Haiti que permitiram ao regime golpista seguir arrasando o Haiti e desestabilizando ainda mais o país. E mais, em sua campanha para as eleições de 1992 Bill Clinton fez campanha com a promessa de revogar o que ele chamou de “cruel política do presidente George H.W. (Bush) de deter os refugiados haitianos em Guantánamo sem direitos legais nos tribunais estadunidenses”. No entanto, após sua eleição, mudou sua postura (4) e se posicionou ao lado da administração Bush ao negar seus direitos legais aos haitianos. Estes continuaram detidos em condições atrozes e o Centro para Direitos Constitucionais reclamou ao novo presidente democrata (lhe soa familiar?).

Enquanto Clinton e seus conselheiros expressavam em público sua consternação pelo golpe ao mesmo tempo se negavam a aprovar a rápida recondução do dirigente do país eleito democraticamente e, de fato, não permitiram a volta de Aristide até que Washington recebeu garantias de que, em primeiro lugar, Aristide não faria uma demanda judicial pelos anos de sua presidência perdidos em um exílio forçado e, segundo, os planos econômicos neoliberais estadunidenses se consolidassem por lei no Haiti.

“À administração Clinton se atribui o haver trabalhado para que Jean Bertrand Aristide voltasse ao poder depois de haver sido derrubado por um golpe militar”, afirma William Blum. “Mas, de fato, Clinton havia estado dificultando a volta em tudo o que pudesse e fez todo o possível para que os conservadores contrários a Aristide voltassem a desempenar um papel fundamental em um governo misto já que Aristide era demasiado de esquerda para o gosto de Washington”. O livro de Blum Killing Hope: US Military and CIA Interventions Since World War II [Matar a esperança:intervenções do exército estadunidense e da CIA desde a Segunda Guerra Mundial] inclui um capítulo sobre a historia do papel dos Estados Unidos no Haiti.

O fato de que se permitira que durante três anos completos continuara incólume o golpe contra ol presidente democraticamente eleito do Haiti a Clinton lhe parecia menos ofensivo que a visão progressista que Aristide tinha de Haiti. Como Blum observava em seu livro (5), “[Clinton] realmente não rechaçava a (líder do golpe Raoul) Cèdras e companhia já que estes não supunham uma barreira ideológica para que os Estados Unidos seguissem exercendo o controle econômico e estratégico do Haiti mantido durante mais de um século, à diferença de Jean-Bertrand Aristide, um homem que apenas há um ano antes havia declarado: “Sigo pensando que o capitalismo é um pecado mortal”.
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Blum acrescenta: “Ao ter que encarar afinal a volta ao poder de Aristide, Clinton exigiu e conseguiu (e então se assegurou de anunciar-lo publicamente) a garantia do presidente do Haiti de que não ia tratar de permanecer no cargo para compensar o tempo perdido no exílio. Clinton, evidentemente, chamou a isto “democracia” , ainda que representara uma legitimação parcial do golpe. De fato, os especialistas em Haiti afirmam que Clinton deveria haver devolvido a Aristide o poder antes de o que o fez em base a um acordo quase idêntico”.

Como assinala Blum, quando Aristide voltou finalmente ao Haiti, “a recepção de Jean-Bertrand Aristide foi uma celebração gozosa cheia de otimismo. No entanto, sem que soubessem seus seguidores, no momento em que estavam recuperando a Aristide poderiam ter perdido o aristidismo”.

Como informou então o Los Angeles Times, “em uma serie de reuniões privadas, altos cargos da administração (estadunidense) recomendaram a Aristide que deixasse sua retórica do bem-estar social (...) e tratasse em vez disso de reconciliar os ricos e pobres do Haiti. A administração também o obrigou a restringir-se estritamente à economia de livre mercado e a acatar a constituição da nação caribenha (que dá um substancial poder político ao parlamento ao mesmo tempo em que impõe estreitos limites à presidência). (...) Os altos cargos da administração obrigaram Aristide a contar com alguns de seus antigos oponentes para estabelecer seu novo governo, (...) ao estabelecer um regime de coalizão de ampla base (...). A administração deixou claro a Aristide que se não conseguisse alcançar o consenso com o parlamento, os Estados Unidos não apoiará seu regime. Quase cada um dos aspectos dos planos de Aristide para voltar a assumir o poder, desde tributar aos ricos até desarmar o exército, foram examinado por altos funcionários estadunidenses com os quais o presidente do Haiti se reúne diariamente e por altos funcionários do Banco Mundial, do FMI e outras organizações de ajuda. O pacote final reflete claramente as prioridades destes últimos. (...) Aristide, obviamente, baixou o tom da retórica da teologia da libertação e da luta de classes que eram sua marca antes de exilar-se em Washington”.

“Enquanto Bill Clinton supervisionava a volta do presidente Aristide em 1994, também punha uns estreitos limites ao que Aristide poderia fazer uma vez recuperado o poder”, afirma Bill Fletcher, Jr, diretor executivo da BlackCommentator.com e o último presidente do Foro Trans-África. “Clinton promoveu uma agenda neoliberal para o Haiti, com o que minou os esforços de uma administração populista progressista (a de Aristide). Não há razões para pensar que (como Enviado das Nações Unidas) o ex-presidente Clinton vá introduzir ou apoiar esforços para que de maneira radical o Haiti deixe de estar sob domínio estadunidense e para acabar com a pobreza que tem sido uma importante conseqüência desta triste dominação”.
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(1) http://www.miamiherald.com/news/americas/haiti/story/1054866.html

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